sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Inocência

Eu fechei meus olhos suavemente
E então tentei sorrir
Ajoelhei-me voltado ao céu
Pedindo esperança ao cair

Um cheiro doce foi sentido
Antigas lembranças vivas como nunca
Uma lágrima escorreu rápida até meu sorriso
Pingou de meu rosto, regou a grama...

Onde foram parar aqueles momentos em que me perdia em teus olhos escuros?
Tão jovem e tão apaixonado...
Onde foi parar a inocência, o amor, o carinho e a pureza?
O afeto e a ausência de pecado?

Eu acariciei o seu pingente
E me lembrei de nosso primeiro beijo
Acariciei meu rosto úmido
Mas meu toque não é como o seu.

E as lembranças de como sua pele macia
Escorregavam em meus cabelos
Me causa saudade.
Sinto tanta saudade!

Onde foi parar seu toque morno?
Suas mãos macias, sua voz reconfortante?
Se eu me perdi no tempo, eu posso voltar?
Eu daria tudo para voltar!

As primeiras promessas, lá no fundo, não se quebram.
Onde me aguarda? No paraíso?
Nem parece mais a minha princesa...
Você cresceu, amadureceu, mas ainda é você.

Eu amarrei um laço em seu cabelo
E então tentei sorrir
Passei a mão em sua bochecha
Encostei meu rosto em ti

Aquele mesmo cheiro era emanado
Seu calor era tudo que existia
Seu sabor doce em meus lábios
Um adeus, um último toque...

Por que será que os desejos limpos têm que dar lugar à dor e perversão?
Você só é minha princesa enquanto princesa?
Onde estão os dias em que me perdia em seus braços?
A inocência é medida pelo que sentimos ou pelo que fazemos?

Eu sinto falta de sua voz, de seu riso!
Você está tão próxima, mas não é a mesma...
E seu pingente é a última lembrança.
O último brilho de esperança...

E eu me lembro feliz de nosso único beijo,
Por mais que ele jamais se repita.
Nossos corações batendo sincronizados
Pela primeira vez. Pela última vez.

Eu me sentei sozinho no céu
E então tentei sorrir
Perdido em sonhos, perdido em você
Perdido no tempo, perdido em mim.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Última Lembrança

Ela estava sentada na escola, olhando seu caderno. A conversa do pessoal era baixa, fazendo um som ambiente comum. O clima claro das luzes florescentes era mais frio e solitário do que esclarecedor. Por mais que se fizesse de forte e apática, ela notou que ele não estava por lá naquela manhã...

Sua garganta aperta, e ela estica sua mão para dentro da mochila, apanhando sua garrafa d’água. Dá uns três goles e percebe que a mesma praticamente acabou, se levantando e indo para fora da sala para enchê-la.

O corredor lá fora estava razoavelmente vazio, com apenas dois funcionários nos quase trezentos metros de distância. Ela segue em frente com a garrafinha em mãos e a enche de água olhando o bebedouro. Lembranças...

Seus olhos se voltam para cima, sua cabeça luta para apagar qualquer emoção daquelas lembranças. Não eram nada mais, apenas lembranças! Ela inspira fundo e pisa forte no chão ao ir ao banheiro lavar o rosto; lavar a alma.

Ela se encara no espelho com raiva. Fraca, fraca!! Por que longe dela era tão difícil manter aqueles pensamentos? Por que aquele filho de uma puta continua se importando com ela? Quantos coices são necessários para derrubar aquele moleque irritante??

Ela joga água no rosto e o esfrega com força. Não havia ninguém no banheiro para ela ter que se segurar. Seus olhos tinham lágrimas, mas ela não queria chorar... ah, o delineador. Ela não era de usar maquiagem, logo esqueceu que estava de delineador, o qual agora estava não só em seus olhos como na sua cara inteira... ela pega um papel e faz todo o ritual necessário para remover as manchas pretas da cara. Seu rosto estava rubro pela esfregada com força. Rubro como quando...

-AAARGH!! IDIOTA!!!

Ela joga o papel com força no lixo, mas o mesmo quica e cai no chão. Ela pouco se importa e se dirige explosiva para a sala. Ela sempre havia sido explosiva, não? Ela mudou em muita coisa no último mês, seria muito pedir para ela mudar nisso. Ela entra na sala e se senta  na carteira.

-Tá tudo bem? – Pergunta uma amiga na cadeira ao lado

Ela muda a expressão completamente sorrindo de modo amistoso. Seu sorriso devia ser sua maior dádiva, e ela o expressa o mais (quase) alegre possível.

-Aham! Eu só fui tirar a maquiagem, tava incomodando...

Ela contrai os lábios ao se virar. Sua orelha queimava, e isso lembrava o jeito que ele dizia que estava tendo mais uma de suas assustadoras ligações com ela. ‘Ele estava muito presente apesar de estar ausente...’ ela pensa brincando com uma folha de caderno dobrada entre os dedos.

Ela não sabia que folha era essa.

Ela a desdobra e vê o garrancho familiar. De onde veio essa carta??? Ela olha para trás colocando a carta contra o peito, mas ele não está com o amigo, nem com a outra amiga... ele foi para a escola só para colocar essa carta alí? Ela abre a folha novamente.

“Olá.
Se você está lendo isso, eu estou morto. E pelo amor de deus, leia essa carta até o fim antes de esboçar alguma reação escandalosa ou de ao menos jogar no lixo esse papel.
Tudo que está sendo escrito aqui pode parecer absurdo e fantasioso, mas de todas as pessoas que eu conheci nessa vida, você é a única que sabe a verdade que há no fantasioso, e a única que faria o que estou para te pedir.
Não é brincadeira, eu estou morto. Meu celular deve estar desligado, minha casa deve estar vazia. Nem procure meu velório, acho que não seria agradável. E eu também não sei como escrevi ou como você está recebendo essa carta. Às vezes o mundo deixa algumas leis serem quebradas por motivos maiores.
Não podemos conversar, não podemos nos ver, mas podemos nos despedir. Estarei invisível e mudo na primeira cabine no banheiro feminino, da esquerda para a direita.

Sinto muito por tudo...”

Ela contrai as sobrancelhas. Essa carta foi a maior compilação de coisas estranhas que ele já havia escrito para ela. Ele já poderia parar com essas gracinhas. Menino ridículo... e o pior é que ela se sentiu levemente preocupada... e se fosse verdade?

Absurdo, não poderia ser verdade! Ela aperta suas mãos no assento da carteira. Isso é a coisa mais ridícula que ela já quis acreditar, a coisa mais...

...ela precisava ir.

Ela se levanta e passa a ponta dos dedos nas sobrancelhas. Isso só poderia ser brincadeira. Ela não ia fazer isso. Ele não estava morto. Ele era um troll maldito, um idiota que estava apenas se divertindo às custas da bondade dela! Ela se prepara para sentar e... levanta. Ela não conseguiria jamais o fato de que realmente foi para o banheiro, mas ela não perderia nada. Se ele estivesse zoando... ele estava zoando. E ela faria algo que iria constrange-lo tanto que ele nunca mais daria as caras!!! Ela entra no banheiro e cruza os braços em desafio. Olha para o primeiro box e entra lá. Tateia à própria volta como uma inútil e se toma de raiva. Que ridícula por ter feito isso! Que...

TOC TOC

Um barulho na divisória da direita corta seu pensamento. Ela estava irritada, mas olha ao lado e estava vazio. Seu coração gela. Alguma coisa quente toca sua mão e ela tenta gritar, mas a sua voz não quer sair da garganta. Quanto mais ela tenta gritar ao ser tragada para dentro do box, mais lágrimas de desespero saem de seus olhos. Desespero pelo desconhecido, desespero pelo diferente, desespero porque era verdade e ele se foi!

A porta se fecha e se tranca, e o calor e força dele envolvem seu tórax, cintura, costas. Ela mal podia acreditar, aquilo não poderia ser real! Mas ela o tateia, ela sente seu corpo. É encostada na divisória e seu choro começa a ser acompanhado de soluços ao sentir os cabelos dele em suas mãos. Aquilo não podia ser real, mas ela não abre os olhos para saber se ela estava mesmo abraçando o nada. Ainda sim, o hálito dele exalado, aquele calor, seu cheiro... ela estava louca? Suas lágrimas diziam que não. Mas não eram só dela. Algo pinga em seu ombro esquerdo, próximo à alça da regata. Ela abre os olhos e vê uma gota de lágrima.

Leva suas mãos à boca ao perceber que não havia ninguém à sua frente, não podia o tocar, não sentia mais seu cheiro ou seu calor. Seu rosto estava seco, mas a lágrima dele continuava a rolar de seu ombro ao longo do braço...

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Apatia

Eu tento seguir pela estrada da vida
Mas no caminho está você...
Eu tento controlar essa emoção perdida
E acabo sob sua mercê...

Eu tento passar por todas as mentiras
Tento manter lembranças ternas
Tento esquecer as palavras prometidas
Tento ignorar as tentativas suicidas...

Eu tento fugir, tento me esconder, tento esquecer...
Mas você está atada a mim por um laço
Tento existir sem você perceber
E isso é tudo que eu faço

Não tente lutar, não ouse negar,
Conviva, você é parte de tudo isso.
Envolvido em apatia é mais fácil respirar
Fugindo das promessas, fugindo do compromisso.

Se você viver, se você morrer...
O quanto me abalará, será que me abalará?
Se eu vivesse ou se eu morresse
Você não se importaria. Você se importaria?

Eu tentei fazê-la ver meu lado
Tentei mudar o destino dado
Seus olhos passaram direto
Contorci-me inquieto.

Eu me joguei à frente desvirtuado
Um erro grave nunca é perdoado
Esse é meu amor secreto
Meu maior orgulho não estará mais por perto.

Agora você é o pilar que me sustenta
Esquecida dentro de um templo antigo
Uma lembrança longínqua, relíquia perdida.
Uma árvore derrubada, o cadáver de um amigo.

Eu nos enterro em lembranças e lama
Não importa quão rápido você corre.
E agora esse poema proclama
Que a palavra de um escritor nunca morre.

As palavras ecoam mais que terremotos
Um coração bate mais forte do que um braço
Emoção só transborda de olhos devotos
Limpe o quanto quiser, sempre poderá ver os traços.

Viva em paz, mas longe de mim.
Deixe-me seguir a estrada ao fim
Vá e deixe tudo isso para trás
Você se importaria? Eu me importaria?

Não deve se segurar
Deixe sua voz ecoar...
Grite, grite como nunca gritou.
Grite para Deus, grite para o mundo.
Deixe sua voz gravada na Terra,
Deixe nossa história gravada na Terra.

Você se importa? Quem se importa?
Nossa lápide será derrubada
Nossa história no fim não é nada.

Se você viver, se você morrer...
O quanto me abalará? Será que me abalará?
Se eu vivesse ou se eu morresse
Você não se importaria. Você se importaria?

Não diga nada, só vá embora.

Quando acontecer, quando eu morrer...
Estará lá para a última despedida?
O quanto você chorará? O quanto você choraria?
Ficaremos para sempre presos nessa apatia?

domingo, 5 de junho de 2011

Dois ou um

Dois caminhos, dois destinos, dois pólos, dois tempos...
Dois, dois, dois, dois...
Duas metades, dois olhos. Simetria, pares.
Dois ovários, dois lábios.
2, 2, 2, 2
Dois lados, duas centenas de pesares.
Dois sentimentos contrários.
Dois planos, dois adversários.
Duas mãos, duas paredes.
Duas camadas protegendo os órgãos.
Dois pés, dois ouvidos...

O mundo é feito a dois, mas para ser feliz, o ser humano só pode estar em um.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Cinco estilhaços

Em cinco pedaços me perco
Estilhaços de um coração
Minha vida centralizando o cerco
E quem sabe se regenerarão?

Vazio me preenche, lágrimas umedecem a terra
Meu corpo e minha mente se perdem quando a esperança encerra
Meu calor se esvaece, meu motivo em névoa desfaz
Minha alma envelhece, em meu peito ecoa o “jamais”.

No mar bravio da perdição o arrependimento me ancora
Na solidão de meu quarto vejo monocromática aurora
Você nunca teve uma poesia porque nunca me fez sofrer
Era eu cego em felicidade, e agora nada posso fazer.

Ao sentir frio teu corpo não mais me aquece. Ao cair não mais sou erguido.
Ao sentir solidão, tua boca me esquece. Ao tentar lutar, sou destruído.
Ao pensar em felicidade, sou golpeado. Em meio a tantos outros sumo...
Sem força nenhuma, deito calado. Sozinho, apenas vagando sem rumo.

Desculpas não removem cicatrizes, corações feridos são gelados
Pelos meus erros sinto-me meretriz, os caminhos estão interditados.
Com todo o fogo em mim restante, explodo na suprema ofensiva
Pois você é a coisa mais importante que já tive nessa vida.

Vivi um ano por um motivo, e planto minha última semente
Talvez os cinco pedaços não se juntem novamente
Não sei se sobreviverei até tê-la novamente para mim.
Então, caso eu falhe, deixo cá registrado o fim.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Névoa

Ela que cobre a todos nós
Que nos traz frio e pesadelos
Opaca nosso sentimento atroz
Leva nossos sentimentos e zelos.

Sobreviver ao abraço gélido
À carícia maliciosa e tênue
Rastejar ofegante e tímido
Os desejos que Deus não atende.

Oh, e ela é onipresente
Nos protege de dor e ardência
Nos impede de sentir amor
Ganhamos a luz e a carência

Ela que de nós tira a vida
Que envolve em lentidão homicida
A alegria de tê-la vivida
O sopro e a cor à nós concedida

E então nasce a inveja
Das crianças que riem e sentem
Da inocência que contra nós peleja
O motivo pelo que nossos sentidos mentem

Ela nos mostra as ilusões
E que o mundo é feito de cera
E o sofrimento toma proporções
Quando as lágrimas amargas não mais caem

Sofrimento mudo
Silêncio doloroso
O mais cinza escudo
Mártir vagaroso

Você sabe como é quando ninguém lhe dá a mão?
Você sabe quando é quando ninguém te afaga?
Você sabe como é indiferença se você chora ou não?
Você sabe como é quando a Névoa te apaga?

Ela se aproxima de almas solitárias
Que nunca encontrariam o caminho da vida
Oferece as linhas contrárias
Em troca da lembrança que pode ser sentida

Os sentimentos se vão, mas as lágrimas permanecem
E uma hora você não sabe mais por quê chora
Talvez esteja bem à nossa frente, mas a Névoa não nos deixa ver
E assim como os sentimentos, as lágrimas desaparecem
O porquê de viver some Névoa afora
E você fica preso nela. É assim que deve ser.

Às vezes o vento sopra e traz lembranças de fora
O preço da verdade é muito grande
O passado e o futuro não fazem diferença agora
A veracidade do coração é inconstante

Senti a lembrança de um toque
Ele ainda queima gentilmente
Lembre-se do que a Névoa quer que se troque!
Ele não faz mais diferença, sinceramente.

Mas quando a vida cai em desesperança
O homem é levado ao desespero
E quando a Névoa avança
Qualquer preço é rasteiro

Se cem vespas picam alguém
É muito fácil esquecer há quantos metros se está do chão.
Quando se sofre, só se quer parar a dor
Não importa o preço a se pagar então...

Se os sentimentos causam-nos dor
Então por quê não entregá-los à Névoa?
Tirando todos não há como repor
Mesmo que lembranças venham na révoa

É um pacto inteligente
Dar emoções por razão
A realidade não mente
Se perder toda a emoção

Mas o tempo passa e se percebe
Que a sádica não leva tudo
O sentimento que o corpo perece
Cravado em seu corpo imundo

Você está sozinho, consegue perceber?
Você consegue enxergar através do cinza?
Você quer chorar? Consegue se encolher?
Percebe seu erro agora que não pode morrer?

Não mais sentirá calor alheio
Aqueles quem prezou nunca mais te tocarão.

Oh, que isso tudo fosse devaneio!
Aqueles a quem amou são os que te queimarão!

Solidão, solidão
Por todos que te perderam
Perdido na solidão
Do modo que prometeram

Preze a presa, a presa tem pressa. Preze a pressa, a pressa da presa. A presa faz preces, preze as preces da presa! Faça preces pela presa, pois ela não escapará.
Preze a prisão aonde a presa faz preces, onde a pressa pela morte toma seu coração.
Preze a presa, faça preces pela presa! Preze a presa na escuridão

Solidão, solidão
Do modo que prometeram
Morto na solidão
Do modo que esqueceram

Erros sem retorno
Escolhas decisivas
Vejo seu contorno
Suas linhas sempre ativas

Ó, Névoa, tenha piedade
Pois a dor nos leva a escolhas precipitadas
Ó Névoa, vê que tenho saudade?
Saudade da vida que me foi retirada!

Ouço passos no escuro, sinto muito meu amor...

Talvez seja muito tarde.
Tarde demais para mim...
Escape e viva
Viva alegria sem fim...

Ela que leva tudo
Ela que suga a alma
Ela que toma o mundo
Com eterna calma

O fim agora chega, e a escravidão começa
Negue seus valores, negue sua promessa.
Negue sua honra, negue seu valor
Negue sua vida, negue seu amor.
Negue a existência, negue esse mundo
Negue sua família, negue lá do fundo
Negue seu romance, negue sua rotina
Negue seu olhar, aceite a Neblina
Negue seus desejos, negue aspirações
Negue sua pátria, não siga direções.

Nada pode ser feito além de negar
Além de obedecer, além de caminhar
O fim chegou, e a Névoa vai ganhar

É tarde demais, tarde demais para mim
Embarco agora no tormento sem fim.

quinta-feira, 31 de março de 2011

Dilema Doloroso

[EM PROCESSO DE EDIÇÃO, BREVE VERSÃO MELHORADA]

As chamas subiam violentamente do térreo, e ele encosta-se à parede do corredor quando o chão parece estar entrando em colapso. Engano seu, ainda bem. As chamas estavam se alastrando muito rápido; a casa de madeira havia formado uma equação malévola com o vento forte que vinha do leste. A casa logo mais não seria nada além de uma pilha negra em meio à grama naquela noite.

CRASH!

Ele se vira, parte do telhado do quarto de Helena havia cedido, tampando a passagem. Ela gritava apavorada lá dentro: os gritos de uma criança de quatro anos encurralada num quarto em chamas.

-CALMA, BEBÊ! FIQUE DEITADA ONDE ESTÁ! TENTE NÃO RESPIRAR A FUMAÇA! – Ele grita com sua voz rouca, e sua garganta arde. A fumaça estava fazendo com ele o que ele não queria para a filha.

"Merda, agora as duas estão encurraladas! Fui lerdo demais...” Ele pensa. Assim que sua esposa foi encurralada pelo telhado que cedeu em seu quarto, Harold correu para tentar tirar Helena do quarto o mais rápido possível. Ele não conseguiu...

-Harold! Harold, me ajude por favor!!! Está muito quente aqui, eu mal... COF! COF! EU MAL CONSIGO RESPIRAR, HAROLD! SOCORRO!

Harold para um instante, tentando secar as lágrimas e se concentrar. E agora? (PAPAI, PAPAI!!! SOCORRO, PAPAI! MEUS OLHOS ESTÃO ARDENDO) Não havia tempo para tirar os escombros dos dois quartos e salvar ambas, em menos de dois minutos a casa cederia... e agora? (HARRY, HARRY, POR FAVOR! O FOGO ESTÁ PERTO E AAARGH! SOCORRO, ESTÁ ARDENDO!)

-Não, não... Deus, por favor, não! – Harold começa a raciocinar rápido. Por que isso agora? A fumaça negra provoca um acesso de tosse nele, e ele ouve a televisão explodindo na sala. Um carro grande chega lá fora. Bombeiros?

Ele estoura a janela, e um vento forte entra, alastrando as chamas que subiam pela escada para o lado posto. Ele em desespero tenta quebrar a janela, quebrando os cacos de vidro com as mãos nuas, e estica o braço para fora.

-Socorro, socorro!!! Minha família está presa, por favor, rápido!

-Senhoras e senhores, ele está acenando! Vamos torcer para o Corpo de Bombeiros do Maine chegue rápido...

...o que? A televisão já havia chegado e a polícia não? Mas como assim? – O chão quase cede novamente, o grito das duas se intensifica. – A escolha foi feita.

-Ginger! – Ele corre até os escombros atrás dos quais sua esposa estava próxima. – Ginger, me perdoe... eu não queria que acabasse assim... (PAPAI, PAPAI, ONDE VOCÊ ESTÁ, PAPAI? SOCORRO!!!)

– As lágrimas rolavam cheias de fuligem pelo rosto, seus olhos começando a arder tanto que ele mal podia os manter abertos. – Que Deus recolha sua alma, querida...

-Harry... por quê? – Ela chorava compulsivamente do outro lado. – POR QUÊ, HARRY?

-Eu te amo, Ginger... – Ele diz entre lágrimas torrenciais, e os escombros flamejantes estouram numa crepitação insana.

-NÃO, HAROLD! POR FAVOR, EU SOU NOVA, PODEMOS TER OUTRA FILHA! (PAPAI, TÁ MUITO PERTO, ME TIRA DAQUI, POR FAVOR!) – A voz dela ela louca e desesperada, e parecia exercer influência psicológica tão bem quanto a coloração vermelha que o ambiente (outrora coberto por papel de parede rosa) tinha. Ele tosse, os pulmões secos quase se rasgando ao comprimir.

-Eu não acredito que falou isso! Ela é nosso bebê! – Ele contorce a cara em raiva e mágoa. Ele amava Ginger, mas Helena tinha mais tempo de vida, mais futuro. Ele preferiria morrer à sacrificar sua filha! Ele corre na direção do quarto dela.

-Harold? HARROLD, SOCORRO, O FOGO ESTÁ PERTO? HARROLD VOLTE AQUI! – Ela estava tendo espasmos de desespero – Harry, amor.. por favor... volte! VOLTE, SEU FILHO DE UMA PUTA CRETINO! VOLTE AQUI AGORA!!! VOCÊ VAI QUEIMAR NO INFERNO! VOCÊ VAI QUEIMAR NO QUINTO DOS INFERNOS, AAAAAAARGH! ( o fogo havia começado a incendiar sua camisola, a carne na lateral da coxa se abrira em uma bolha grande instantaneamente) VOCÊ VAI PRO COLO DO DIABO, SEU MALDITO! VOCÊ AAAAAARGH, AAAAAAAAAAAAAAAAAAAARGH! DESGRAÇADO, AAAAAAAAAAAARGH!!!

O som de sua esposa agonizando nas chamas faz Harry quase desmaiar, ele cai sobre os joelhos e o chão racha! Ele rola para frente bem a tempo de evitar cair no andar de baixo... sobre as chamas e os cacos da tela da televisão Panasonic 32” que jaziam caídos, muitos dos quais apontados para cima, como oferecendo uma recepção calorosa... ele vomita, e quase escorrega sobre o vômito ao levantar-se.

Haviam pedaços de madeira maciça em chamas e alguns blocos de tijolo junto com duas ou mais vigas de ferro bloqueando a porta. Quanto tempo ele (AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAARGH!) teria? Droga... eu a amo tanto... Seu corpo estava mole de desespero.

-Ficar assim não vai salvar ela. (PAPAI! TÁ ARDENDO!)

-EU ESTOU AQUI FILHA! PAPAI ESTÁ AQUI! – Ele começa a empurrar com as mãos nuas as madeiras, e sua pele começa a inchar em bolhas. Em seguida, começa a abrir, expondo a carne. Ele gritava de dor e de horror mental, enquanto sua carne se comprimia dentro das chamas. Ele consegue afastar a madeira e passa por entre as vigas de ferro. Corre até Helena, que gritava de medo, com um vergão –uma queimadura – no braço esquerdo.

-Cadê a mamãe, papai? Ela está bem? Eu ouvi ela gritando!!!

-Ela está bem, filha... – ele suspira. Com reflexos invejáveis, ele salta para o lado com a filha no colo. O teto desmorona sobre a caminha dela, levando chão e parte da parede para o andar a baixo.

-PUTA QUE PARIU!

-Papai, palavra feia!!!

Ele se acalma enquanto passa por entre os ferros com ela no colo. Ele queima as costas e se contorce. Suas mãos não se mexiam mais, como se uma luva de ferro as esticasse e prendesse. Ele começa a descer as escadas e percebe que elas estão quebradas!

Salta com a filha no colo, se assustando com o grito dela mais do que com a parte do corrimão que cede e cai ao lado deles. Ele cai e ela escapa de suas mãos, rolando ao chão. Uma caneta Bic derretida pelas chamas gruda no pescoço dela.

Ele corre e retira o mais rápido que pode a caneta, deixando parte do pescoço dela em carne viva. (Se não corrermos daqui, ela ficará INTEIRA em carne viva.) Ele vê a porta de saída à menos de quinze metros de distância, e parte para correr. Grita: Um caco de vidro lhe atravessara o pé.

Helena tossia muito com a fumaça, e ele a abaixa para que tente respirar um pouco enquanto dá a volta nos vidros tentando ignorar a dor. Parte correndo e...

CRASH!

O telhado e a parede cedem aonde estava a porta! Por pouco eles não escapam... e por pouco não são esmagados! Ele vira para trás: Sua última esperança era a (COF! COF!) porta dos fundos...
Ele parte, a adrenalina fluindo em seu corpo. O calor latejava seus olhos e Helena havia desmaiado com a falta de ar. Quase lá, quase lá! Ele chega à cozinha, e avista a porta dos fundos. Parte correndo e

BOOM!

O botijão de gás explode, o lançando através da mesa de madeira. Uma lasca comprida enorme atravessa suas costas, por pouco não empalando a cabeça de Helena. Se ela estivesse acordada...
Suas pernas não se mexem mais. Talvez tenha sido a madeira, rasgando algum nervo importante... ou talvez a fadiga tenha o atingido. Tão perto, se Helena estivesse acordada...

-Querida... bebê, acorda... a porta está lá... – Ele chorava compulsivamente. – Corre... corre e vive pelo papai, acorda, filha... – O teto desmorona diante da porta.

Ele encosta a nuca na parede. Eles mereciam isso? Ao menos ela não sentiria nada, estava inconsciente... cinzas fumegantes caíam do teto sobre eles, e ele arruma o cabelo de sua filha.
Tão longe para morrer ali... (VOCÊ VAI PARA O INFERNO!) O teto rachava e ia ceder sobre ambos. Ele não conseguia mover as pernas e isso não importava mais. As lágrimas rolavam de seu rosto quando...




...um toque suave vai em sua mão. Os olhos negros de Helena se dirigiam à ele, enquanto ela estava deitada no chão sob aquela coloração vermelha. Ele começa a chorar e aperta a mão da filha.

-Oh... filha...

O teto desmorona sobre eles. Ao longe é ouvida uma sirene se aproximando...

Twitter Delicious Facebook Digg Stumbleupon Favorites More