quinta-feira, 31 de março de 2011

Dilema Doloroso

[EM PROCESSO DE EDIÇÃO, BREVE VERSÃO MELHORADA]

As chamas subiam violentamente do térreo, e ele encosta-se à parede do corredor quando o chão parece estar entrando em colapso. Engano seu, ainda bem. As chamas estavam se alastrando muito rápido; a casa de madeira havia formado uma equação malévola com o vento forte que vinha do leste. A casa logo mais não seria nada além de uma pilha negra em meio à grama naquela noite.

CRASH!

Ele se vira, parte do telhado do quarto de Helena havia cedido, tampando a passagem. Ela gritava apavorada lá dentro: os gritos de uma criança de quatro anos encurralada num quarto em chamas.

-CALMA, BEBÊ! FIQUE DEITADA ONDE ESTÁ! TENTE NÃO RESPIRAR A FUMAÇA! – Ele grita com sua voz rouca, e sua garganta arde. A fumaça estava fazendo com ele o que ele não queria para a filha.

"Merda, agora as duas estão encurraladas! Fui lerdo demais...” Ele pensa. Assim que sua esposa foi encurralada pelo telhado que cedeu em seu quarto, Harold correu para tentar tirar Helena do quarto o mais rápido possível. Ele não conseguiu...

-Harold! Harold, me ajude por favor!!! Está muito quente aqui, eu mal... COF! COF! EU MAL CONSIGO RESPIRAR, HAROLD! SOCORRO!

Harold para um instante, tentando secar as lágrimas e se concentrar. E agora? (PAPAI, PAPAI!!! SOCORRO, PAPAI! MEUS OLHOS ESTÃO ARDENDO) Não havia tempo para tirar os escombros dos dois quartos e salvar ambas, em menos de dois minutos a casa cederia... e agora? (HARRY, HARRY, POR FAVOR! O FOGO ESTÁ PERTO E AAARGH! SOCORRO, ESTÁ ARDENDO!)

-Não, não... Deus, por favor, não! – Harold começa a raciocinar rápido. Por que isso agora? A fumaça negra provoca um acesso de tosse nele, e ele ouve a televisão explodindo na sala. Um carro grande chega lá fora. Bombeiros?

Ele estoura a janela, e um vento forte entra, alastrando as chamas que subiam pela escada para o lado posto. Ele em desespero tenta quebrar a janela, quebrando os cacos de vidro com as mãos nuas, e estica o braço para fora.

-Socorro, socorro!!! Minha família está presa, por favor, rápido!

-Senhoras e senhores, ele está acenando! Vamos torcer para o Corpo de Bombeiros do Maine chegue rápido...

...o que? A televisão já havia chegado e a polícia não? Mas como assim? – O chão quase cede novamente, o grito das duas se intensifica. – A escolha foi feita.

-Ginger! – Ele corre até os escombros atrás dos quais sua esposa estava próxima. – Ginger, me perdoe... eu não queria que acabasse assim... (PAPAI, PAPAI, ONDE VOCÊ ESTÁ, PAPAI? SOCORRO!!!)

– As lágrimas rolavam cheias de fuligem pelo rosto, seus olhos começando a arder tanto que ele mal podia os manter abertos. – Que Deus recolha sua alma, querida...

-Harry... por quê? – Ela chorava compulsivamente do outro lado. – POR QUÊ, HARRY?

-Eu te amo, Ginger... – Ele diz entre lágrimas torrenciais, e os escombros flamejantes estouram numa crepitação insana.

-NÃO, HAROLD! POR FAVOR, EU SOU NOVA, PODEMOS TER OUTRA FILHA! (PAPAI, TÁ MUITO PERTO, ME TIRA DAQUI, POR FAVOR!) – A voz dela ela louca e desesperada, e parecia exercer influência psicológica tão bem quanto a coloração vermelha que o ambiente (outrora coberto por papel de parede rosa) tinha. Ele tosse, os pulmões secos quase se rasgando ao comprimir.

-Eu não acredito que falou isso! Ela é nosso bebê! – Ele contorce a cara em raiva e mágoa. Ele amava Ginger, mas Helena tinha mais tempo de vida, mais futuro. Ele preferiria morrer à sacrificar sua filha! Ele corre na direção do quarto dela.

-Harold? HARROLD, SOCORRO, O FOGO ESTÁ PERTO? HARROLD VOLTE AQUI! – Ela estava tendo espasmos de desespero – Harry, amor.. por favor... volte! VOLTE, SEU FILHO DE UMA PUTA CRETINO! VOLTE AQUI AGORA!!! VOCÊ VAI QUEIMAR NO INFERNO! VOCÊ VAI QUEIMAR NO QUINTO DOS INFERNOS, AAAAAAARGH! ( o fogo havia começado a incendiar sua camisola, a carne na lateral da coxa se abrira em uma bolha grande instantaneamente) VOCÊ VAI PRO COLO DO DIABO, SEU MALDITO! VOCÊ AAAAAARGH, AAAAAAAAAAAAAAAAAAAARGH! DESGRAÇADO, AAAAAAAAAAAARGH!!!

O som de sua esposa agonizando nas chamas faz Harry quase desmaiar, ele cai sobre os joelhos e o chão racha! Ele rola para frente bem a tempo de evitar cair no andar de baixo... sobre as chamas e os cacos da tela da televisão Panasonic 32” que jaziam caídos, muitos dos quais apontados para cima, como oferecendo uma recepção calorosa... ele vomita, e quase escorrega sobre o vômito ao levantar-se.

Haviam pedaços de madeira maciça em chamas e alguns blocos de tijolo junto com duas ou mais vigas de ferro bloqueando a porta. Quanto tempo ele (AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAARGH!) teria? Droga... eu a amo tanto... Seu corpo estava mole de desespero.

-Ficar assim não vai salvar ela. (PAPAI! TÁ ARDENDO!)

-EU ESTOU AQUI FILHA! PAPAI ESTÁ AQUI! – Ele começa a empurrar com as mãos nuas as madeiras, e sua pele começa a inchar em bolhas. Em seguida, começa a abrir, expondo a carne. Ele gritava de dor e de horror mental, enquanto sua carne se comprimia dentro das chamas. Ele consegue afastar a madeira e passa por entre as vigas de ferro. Corre até Helena, que gritava de medo, com um vergão –uma queimadura – no braço esquerdo.

-Cadê a mamãe, papai? Ela está bem? Eu ouvi ela gritando!!!

-Ela está bem, filha... – ele suspira. Com reflexos invejáveis, ele salta para o lado com a filha no colo. O teto desmorona sobre a caminha dela, levando chão e parte da parede para o andar a baixo.

-PUTA QUE PARIU!

-Papai, palavra feia!!!

Ele se acalma enquanto passa por entre os ferros com ela no colo. Ele queima as costas e se contorce. Suas mãos não se mexiam mais, como se uma luva de ferro as esticasse e prendesse. Ele começa a descer as escadas e percebe que elas estão quebradas!

Salta com a filha no colo, se assustando com o grito dela mais do que com a parte do corrimão que cede e cai ao lado deles. Ele cai e ela escapa de suas mãos, rolando ao chão. Uma caneta Bic derretida pelas chamas gruda no pescoço dela.

Ele corre e retira o mais rápido que pode a caneta, deixando parte do pescoço dela em carne viva. (Se não corrermos daqui, ela ficará INTEIRA em carne viva.) Ele vê a porta de saída à menos de quinze metros de distância, e parte para correr. Grita: Um caco de vidro lhe atravessara o pé.

Helena tossia muito com a fumaça, e ele a abaixa para que tente respirar um pouco enquanto dá a volta nos vidros tentando ignorar a dor. Parte correndo e...

CRASH!

O telhado e a parede cedem aonde estava a porta! Por pouco eles não escapam... e por pouco não são esmagados! Ele vira para trás: Sua última esperança era a (COF! COF!) porta dos fundos...
Ele parte, a adrenalina fluindo em seu corpo. O calor latejava seus olhos e Helena havia desmaiado com a falta de ar. Quase lá, quase lá! Ele chega à cozinha, e avista a porta dos fundos. Parte correndo e

BOOM!

O botijão de gás explode, o lançando através da mesa de madeira. Uma lasca comprida enorme atravessa suas costas, por pouco não empalando a cabeça de Helena. Se ela estivesse acordada...
Suas pernas não se mexem mais. Talvez tenha sido a madeira, rasgando algum nervo importante... ou talvez a fadiga tenha o atingido. Tão perto, se Helena estivesse acordada...

-Querida... bebê, acorda... a porta está lá... – Ele chorava compulsivamente. – Corre... corre e vive pelo papai, acorda, filha... – O teto desmorona diante da porta.

Ele encosta a nuca na parede. Eles mereciam isso? Ao menos ela não sentiria nada, estava inconsciente... cinzas fumegantes caíam do teto sobre eles, e ele arruma o cabelo de sua filha.
Tão longe para morrer ali... (VOCÊ VAI PARA O INFERNO!) O teto rachava e ia ceder sobre ambos. Ele não conseguia mover as pernas e isso não importava mais. As lágrimas rolavam de seu rosto quando...




...um toque suave vai em sua mão. Os olhos negros de Helena se dirigiam à ele, enquanto ela estava deitada no chão sob aquela coloração vermelha. Ele começa a chorar e aperta a mão da filha.

-Oh... filha...

O teto desmorona sobre eles. Ao longe é ouvida uma sirene se aproximando...

quarta-feira, 23 de março de 2011

Quebrado em 2

Eu te amo, e Deus é sádico comigo;
Nada que eu faça mudará o fato, você jura.
Amar-te é meu eterno castigo:
Dor no peito que não mata, tortura.

Se de amor morrêssemos, ele seria inimigo
Pois de joelhos pereceríamos da alma ao osso.
Se amor matasse, não seria um castigo:
Não seria tão cruel, amargo e esperançoso.

sexta-feira, 18 de março de 2011

Fênix

 Sem piedade, sem perdão,
 Eu sobrevoo suas cabeças
 Com meu fogo profanador
 Eu destruo sua inocência.

 Chama negra, que brilha sem calor.
 Mente compulsiva, vibra como louca.
 Enxofre, que envenena sem odor...
 Sangue peçonhento pinga de minha boca.

 E por um momento eu pensei em me queimar...
 Mas se isso acontecer, eu sei que vou voltar...

 A chama corrompe a todos que toca,
 Almas são coletadas para a coleção sádica,
 E a névoa doentia emana da maldita tocha.
 A névoa de sonhos quebrados e dor estática.

 Eu me corto por prazer.
 O sangue faz cócegas enquanto escorre em diversão.
 O álcool se torna um lazer,
 Lágrimas são inexistentes: a dor caleja o coração.

 E por um momento eu pensei em me queimar,
 Mas se isso acontecer, eu sei que vou voltar!

 Preso num pesadelo eterno
 O sinal macabro do céu.
 Mau presságio do inferno
 Paga pelos crimes dos quais é réu

 Ajoelho-me e me chibato;
 O ardor causa excitação
 Nas pessoas de quem me afasto.
 Experimentem o calor das chamas que virão!

 Segui pelo caminho sem volta
 De pecados, vícios, maldade.
 Se tento me segurar, você ri e me solta
 Abro os olhos para a realidade.

 Por um momento, pensei em desistir...
 Seria muito mais fácil voltar a sorrir!
 E por um momento eu pensei em me queimar,
 Mas se isso acontecer, eu sei que vou voltar!

 Maldição...

 A luz entra fraca pela janela.
 Dias cinzas não me alimentam mais.
 Preciso de almas daquela cidadela,
 A cidadela de onde vieram meus pais

 Lá há inocência e felicidade.
 Ambos os quais cedo perdi
 Com violência e brutalidade.
 Pureza vem dos crimes que cometi!

 Os purifico com essas chamas ardentes.
 Ó, vejam meu esplendor maldito!
 Ajoelhem-se perante teu mestre,
 Pois de ti me alimento e vomito!

 Por um momento, as chamas foram claras,
 E por um momento, o mundo viu a luz.
 Por um momento, o pássaro entrou em chamas,
 Chuva de cinzas que jamais se reproduz...

 E do topo do mais alto pico
 As cinzas se unem na precipitação
 E uma mancha escura no céu anuncia:
 Levanto-me agora em destruição!

 As peles se abrindo
 Vítimas do calor intenso!
 Calor que evapora seu sangue denso!

 Por uns minutos, queimei tudo que tinha.
 E por um momento, desisti do branco e luz.
 E as chamas purificaram a bondade mesquinha
 Trazendo de volta o que não se traduz.

 E por um momento eu pensei em me queimar...
 Mas se isso acontecer, eu sei que vou voltar!

 Eu me queimei!
 A maldição da Fênix!
 Preso na realidade,
 Sem saída!
(Eles podem te ouvir!)
 Todos eles podem, eu ouço em minha cabeça!
(Queime todos, vingue-se!)

 Ó, mundo infeliz, caia sobre desgraça.
(Ajoelhem-se para o fogo eterno...)
 Eu faço chover fogo sobre os infiéis!
 E eles continuam ordenando, e eu continuo queimando!






(Olhe para baixo, onde eles vivem
Como um formigueiro de seres miseráveis.
Enfileirados, reféns sem chance de fuga
Seguindo em direção ao destino inevitável.

Presos em suas rotinas desgostosas,
Em coro cantam suas decepções morféticas.
Não merecem o volume que ocupam no mundo,
Não merecem a parcela do mundo que têm.

Eles riem de você.
Eles riem em deboche ignorante, acham que estão certos.
A ignorância deles os faz pensar que estão acima de você.
Estão presos em sonhos.

De uma vez por todas,
Mostre-os a verdade.

Todo homem é responsável pelo próprio destino.
Toda geração é responsável pela vida da próxima.
Vez após vez, eles saem do ânus do mundo.
O erro está confinado no passado.

Purifique-os com seu fogo negro,
Pois nenhum ser se mantém adormecido quando começa a ser imolado.
Só o fogo pode purificar esses que vivem já podres.
Mostre a verdade. Sem piedade, sem perdão.

Eles jamais te salvariam.
Tenha misericórdia do mundo e limpe-o de seus algozes.
Faça-os sofrer. O fogo queima mas ilumina.
Sofrendo eles entenderão a verdade e te aceitarão.

Você é o Juízo Final.)






 Eu decidi meu caminho!
(É tarde demais para dar as costas!)
 Hesitar me matará,
 Chamas negras voltam sobre o corpo da fênix!

 E num circuito de praga sobre o mundo...
(Dor)
 Doença, tristeza...
(dor)
 ... Desgraça, preguiça...
(dor, DOR!)

 A praga cai como uma chuva de agulhas,
 Fiéis e infiéis no fio da espada.
 A dança desesperada dentro das chamas,
 A guerra, a psicose, a fênix intocada.

Não haverá vida, haverá nada,
O nada presente em tudo.
Sem defesa. Sem espada, sem escudo.

O sinal do renascimento,
O fogo que nos consome.
O executor e o julgamento,
O monstro que acorda com fome.

 Oh, e são dignos de pena!
(Queime-os todos!)
 Ó, arrependam-se de seus erros!
(Desista dos olhos verdes!!!)
 Gritem, desesperem-se!
(Faça-os pagar por machucar os inocentes!)
 Deslumbrem o imortal...
 E de joelhos... DE JOELHOS!
(você é eterno.)

 Eterno?
 eterno...


 ...
queima...
essa é a maldição da fênix...
ser eterno...
...
...
...




 me liberte...

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Platonicismo

Caros leitores.
Esse conto é uma continuação direta do conto que inaugurou a Névoa, Amor. Se não leu esse conto ainda, não prossiga, e leia no link abaixo:
http://contosdanevoa.blogspot.com/2010/08/amor.html

Obrigado
Isaque Lazaro



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Oliver era o seu nome.

O rapaz de cabelos ralos e negros andava em meio à neve, enquanto se lembrava de seu amigo de infância, Arkham. Ele sorri.
Ambos acabaram tendo seus destinos traçados por sentimentos que fazem o homem frágil, e ambos teriam um desfecho infeliz. Ele sentia isso. Arkham tinha esperança, ele tinha ceticismo. Amelia... a garota de olhos azuis escuros e cabelos de cor dourada que quase lembravam ouro velho.

Ele sabia que estava sendo enganado o tempo todo. Desde que Arkham e ele conheceram Amelia e Liliana naquela noite. O tempo se passou, e ele e Amelia se tocaram. Aquela pele gélida dela o assombrava. A neve parecia mais quente do que a menina. Eles deviam ter dezesseis anos na época.

O tempo se passou, e todos eles cresceram. Ele nunca viu Amelia de manhã nas ruas, mas sempre via o pai dela. Ele andava de modo como se estivesse tentando fugir de alguém durante o tempo todo. Durante as noites ele a via próximo de sua casa, sempre sentada sozinha. Aqueles lábios dela o atraíam, e ele não entendia o porquê. Ele não se importava com o motivo, mas parecia que aquela garota solitária e calada era a pessoa por quem ele sentiria prazer em sofrer. Dois anos se passaram, e Liliana sumiu. Arkham partiu atrás dela, dizendo que saberia onde encontrá-la. Esses dois anos mudaram muitas coisas, mas Amélia não mudou.

O tempo não a abalava, e ela continuava com seus dezesseis anos. Ela parecia relutante em ser amiga de Oliver, e ele não se importava. Ele se sentia forte ao lado dela, ele se sentia alguém. Ela devia esconder algo, mas por algum motivo ele não se importava.

Chegou um dia em que o pai dela foi encontrado morto. Ela não chorou. Ele seguiu até a casa simples de madeira onde ela morava. Era numa grande clareira na boca de uma floresta, com três grandes árvores, uma delas seca. Flores de todo tipo cresciam por toda a extensão da área, e uma torre com um farol e quatro canhões se mostrava no horizonte. Ele bateu na porta.
-Amelia?

Ela abriu a porta, olhando-o de baixo para cima, com uma expressão de insegurança.
-Amelia... eu sinto muito por seu pai. – Oliver engoliu seco. – Eu sei como dói perder o pai... eu tinha treze quando aconteceu.

-Ele não era meu pai. – Amelia respondeu com sua voz sussurrante e doce. Sua cabeça baixa, sua pele gélida parecia mais alva naquela noite de outono tão fortemente iluminada pelo luar.

-Ah... eu não sabia. Mas... isso não te magoou? – Ele perguntou, já confuso em reação à situação. Ela sorriu de canto com aquele olhar vazio. Ele percebeu que ela estava sem esperanças no rosto, mas...





...Ela o beijou.
Seus lábios eram macios e frios, e tocaram se colando nos dele por um breve momento. Ele ficou parado. A pele dela trouxe um calor dentro dele. Ele pediu para entrar.

Aquela noite os consagrou juntos. Ele teve o corpo dela, e ela o dele. Ela era forte, e tímida. Sua face era melancólica, mas atraente. Seu corpo era gelado, mas aquecia ele por dentro. Em meio a tantos oxímoros, ele entregou seu coração à ela finalmente.

Mais um ano se passou, e ela continuava intacta, bela, jovem... Eles se viam toda noite e aos poucos, ele se submetia mais à ela. Não fazia muito tempo desde que ele ouviu os rumores de que Liliana havia sido trancada na torre. Arkham estaria de volta em breve... mas nesse meio tempo, algo aconteceu, e tudo foi esclarecido.

Amelia sempre foi uma pessoa muito educada. Exigia permissão para entrar em sua casa até mesmo sabendo que ele morava sozinho. Ela parecia não envelhecer nem mentalmente, nem corporalmente. Seu corpo era gélido... tudo fazia sentido.
Mais seis meses se passaram, e ele já sabia de tudo. Mas não importava mais. Ele estava satisfeito assim. Era ridículo acreditar que Amelia o amava. Mas ela alimentava o amor dela, e ele a alimentava. Era óbvio demais se Amelia o fizesse, então ele caçava para ela. Era perigoso? Sim, era. Ele podia ser morto como o “pai” dela, mas era o único jeito. Ele não mais vivia sem as carícias de Amelia.

É ridículo acreditar que um morto possa amar, mas se fosse assim, poderia um homem amar um morto? Não mais importava. O sol já se punha no horizonte, e era hora de caçar. Até que o suspeito dos assassinatos recentes apareceu. Aquele que amava uma morta.

Acreditarem que Arkham matou essas pessoas em rituais demoníacos foi uma boa cobertura para que ele caçasse sangue fresco para Amelia, mas agora, ele estava de volta, e havia entrado na torre. O suposto culpado seria morto na torre mesmo...

Era triste, Oliver sentiu um aperto no coração. Mas nada mais podia ser feito. Saciar Amelia, saciar o motivo de sua vida... isso era mais importante. Uma pequena embarcação voltava para a praia pelo horizonte, e as ondas se quebravam nas rochas. Seu destino seria um pouco melhor, ao menos... mas ele precisava partir dali com Amelia. Antes, ele pegou seu cantil, e sua faca e partiu para a caça, na direção oposta de uma multidão furiosa com tochas e forcados que partia para a torre...

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Reunião de Família

[EM PROCESSO DE EDIÇÃO, BREVE VERSÃO MELHORADA]


Ele estava na cama, exausto após um bom pornô em seu notebook. Havia limpado as mãos na lateral da cama, e se deitou de bruços, até que, por algum motivo o qual não entendeu, se levantou e foi até o quarto de sua irmã.

Ela tinha sete anos, e era loira dos olhos escuros, que tinham um brilho lindo. Ele dizia sempre para ela que haviam aprisionado o brilho das estrelas naqueles olhinhos. A casa estava silenciosa, escura e o frio da madrugada batia em suas canelas, a luz da rua entrava pelas janelas do corredor. Sua mãe estava trabalhando e chegaria tarde, o pai roncava no quarto.

Ao entrar no quarto, no entanto, um travesseiro cobre rosto dela. Ele não sabia quem fazia isso na garota, mas não podia fazer nada! Ela se debate em desespero tentando gritar, mas o travesseiro abafa os gritos da criança sufocada. A pele de seu rosto alvo e macio começa a ficar roxa enquanto uma lágrima de desespero e tristeza escorre pelo seu rosto. Ela se debatia com toda a força, mas o assassino era muito mais forte. Aos poucos, a força acabou no corpo delicado da princesinha enquanto aqueles olhos grandes e inocentes perdiam o brilho da vida.

Ele correu em choros soluçantes abafados. Por quê? Quem?? Ela tinha sete anos, pelo amor de Deus! Assassinaram a irmã de sete anos na frente dele! Como alguém faria isso? Ele tentou fugir, mas a porta estava trancada. As janelas eram muito altas, e não adiantava fugir por lá. Seu corpo tremia em desespero e agonia, e seu coração se contraía de pena e tristeza ao lembrar da pequena Laurana. Ela tinha tanto o que viver ainda, tanto o que fazer, e morreu abatida como um animal! Ao menos ela iria para o céu...

- ...céu? – Ele murmura baixo, e se lembra de seu pai. Seus olhos se arregalam, e ele corre para o quarto onde seu pai dormia. Seria muito tarde?

Esse iria para o céu? Dois anos atrás ele ainda bebia e batia na mãe. Uma vez, ele invadiu o quarto do garoto, pegou o taco de beisebol dele e espancou a própria esposa!! Ninguém nunca soube dessa história, todos temiam o homem... até que ele encontrou Jesus.

Há dois anos, o alcoólatra de atitudes agressivas havia se tornado um homem de bem. Seus pecados foram supostamente perdoados quando ele foi imerso numa banheira, num processo ritualístico chamado “batismo”.

Ao chegar lá, acende a luz. Tão claro... ele não conseguia enxergar por uns segundos... e sangue. Sangue?

Seu pai levou uma tacada de beisebol no pescoço, e não conseguia falar nem respirar, com o sangue saindo grosso de sua boca, e ensopando a cama e suas roupas. Seu pomo de adão estava afundado, e um hematoma enorme se formava, mostrando que uma hemorragia interna se formava. Ele perdia sangue e ar a cada segundo, até que mais uma tacada o tira a consciência. Seus olhos opacos mostravam indignação, como se ele conhecesse o assassino! Mais duas, três, quatro tacadas, e o sangue espirrava nas paredes, nas roupas de todos no quarto... quem era esse assassino? Por quê ele não lembrava??

Ele correu mais uma vez, mas em choque, tropeçou na escada, e desceu ela rolando. Enquanto os degrais açoitavam suas juntas, ele se lembrava... sua mãe. Que trabalho legal o dela. Era óbvio que nesse momento, ela estava pagando um boquete para seu chefe naquela Mercedes.

Uma última pancada na escada o faz desmaiar.

Ele acorda, sua visão estava escura, mas ele estava na escada, um calor quase sufocante estava ao seu lado... o que era? Um incêndio? O Assassino ia o matar agora? Que não fosse doloroso, ele pensa. Mas aos seus olhos se abrirem, a coisa é muito pior.

Sua mãe nunca tinha sido uma pessoa boa. Ela traía o esposo. Seus amigos dizem já terem visto vídeos eróticos dela na internet, e que ela era boa no boquete. Talvez fosse verdade. Ela descontava toda sua raiva nele, nunca em Laurana. Era injusto. Apenas pelo fato dele ser homem, ele deveria sofrer o que ela queria fazer com o pai dele e nunca conseguiu.

E agora lá estava ela. Suas pernas estavam queimadas, e seu rosto havia sido esfolado com uma pedra áspera. Arama farpado estava a amarrando na cadeira. Depois, a enrolando, e por fim, perfurando sua traquéia. Seu rosto exibia desespero, e um olhar de... reconhecimento?

Como ninguém ouviu os possíveis gritos de dor dela? Como a polícia não havia sido chamada? Ele não se sentia mal pelos pais, mas Laurana... ele não pôde fazer nada por ela. Afinal, por que porra ele não se lembrava de nada? Por que ele se mantinha em casa?? Não era hora de perguntas. Ele foge para o porão, e se tranca lá.

A polícia chegaria logo mais, ele tinha certeza disso, bastava sobreviver uns minutos! Ele pega uma faca enferrujada e se encosta na parede. Mil pensamentos queimam seu cérebro. Laurana morreu... seus pais...

Sua garganta estava seca, e doía, seu choro soluçante era abafado pela mão com a faca. Os minutos se arrastam, e ele ouvia uns passos de vez em quando... até que a sirene da polícia toca. Finalmente! Ele corre para destrancar a porta do porão, mas algo rasga sua garganta rápido, e ele cai de joelhos. O ar não entrava, e sua garganta ardia muito. As lágrimas escorriam pelo seu rosto, o sangue jorrando para fora do pescoço. Tão perto... ele morreu por nada. Ao menos agora ele tinha certeza de quem era o assassino. Estava lá: uma faca enferrujada coberta de sangue em sua mão direita.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Inferno - Aqueronte

Eis aqui a continuação oficial do aclamado primeiro capítulo da série Inferno. Se não o leram ainda, antes de ler esse capítulo, confira o anterior aqui :
http://contosdanevoa.blogspot.com/2010/09/inferno-o-comeco.html

Muito grato,
Isaque Lazaro.










“A Ti te invoquei; salva-me, e guardarei os teus testemunhos.” Sal. 119:146


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Acordei. Sentia um frio bater em minhas pernas enquanto eu abria os olhos ainda grudados pelo sono forçado. Meu corpo doía, aparentemente eu havia repousado em rochas e terra.

Me levantei, limpando os cotovelos e joelhos, uma brisa batia em minhas costas, como se algo no horizonte estivesse tentando sugar tudo que estava perto de mim. O céu era avermelhado, as rochas eram avermelhadas. Tudo iluminado por um sol que não emitia calor, vermelho e imponente no céu. Que lugar era esse?

Olhei aonde estava, era uma velha estrada atrás de mim, mas que terminava num penhasco. Eu não gostaria de pular penhasco abaixo, então, comecei a descer a colina. Minhas roupas não eram mais as que usei durante o pacto. Ao contrário, era uma túnica cinza que mais parecia um vestido até o joelho. Em meu peito, um colar improvisado com um pequeno pingente de ferro repousava. Era tudo que eu precisava.
Descalço, comecei a passar pela estrada escarlate, até que entre duas árvores mortas, secas, e assustadoras, repousava uma placa. Nela li:


“POR MIM SE VAI À CIDADE DOLENTE,
POR MIM SE VAI À ETERNA DOR,
POR MIM SE VAI À PERDIDA GENTE.

JUSTIÇA MOVEU O MEU ALTO CRIADOR,
QUE ME FEZ COM O DIVINO PODER,
O SABER SUPREMO E O PRIMEIRO AMOR.

ANTES DE MIM COISA ALGUMA FOI CRIADA
EXCETO COISAS ETERNAS, E ETERNA EU DURO.
DEIXAI TODA A ESPERANÇA, VÓS QUE ENTRAIS!”


Estas palavras estavam escritas em tom escuro, no alto de um portal. Pisei dentro, receoso, assustado. Logo que entrei, ouvi gritos terríveis, suspiros, prantos, sofrimento que ecoavam pela escuridão sem estrelas. Lamentos tão intensos e sinceros que me senti perturbado naquele mesmo momento. Abaixei a cabeça, sentado no chão e tampei os ouvidos. Todos esses gritos, vindos de pessoas cujas almas estavam indo para o sofrimento eterno. Pessoas que eu conheci provavelmente estariam por ali. Chorei.

Imaginei tantas pessoas que eu não sabia mais o paradeiro... será que Guilherme estaria aí? E o Felipe? A última vez que eu ouvi falar dele, ele havia sido baleado ao sair do banco... Tudo se responderia por aqui.


-Que lágrimas bonitas, Isaque. Realmente comovente ver você chorando ao lembrar dessas vadias... – Uma voz masculina e irônica disse atrás de mim. Não olhei, mas sabia quem era.

-Não pensei em vadia alguma, maldito. – Respondi.

-Ah, sua mãe não estava no meio, querido? Erro meu... Sabe, até mesmo demônios erram...


Olhei para trás. Era um homem cujo corpo era imaterial, formado de fumaça que vinha de seus pés formandos eu corpo nu e musculoso. Era careca e apenas seus olhos não eram feitos daquela fumaça cinza-escura. Seus olhos eram uma luz intensa amarelada. Me ergui, limpando as lágrimas, e sobrepondo os gemidos do lugar. Gritos de mágoas, queixas, brigas e ira ressoavam em diversas línguas, formando um tumulto que tinha o som de uma ventania.

-Quem é você? – Indaguei o ser.

-Oras, deveria saber quem eu sou! Sou o anjo que tocou os instrumentos mais belos no Céu. Sou um dos filhos que o Criador mais amou! Sou o renegado que atiça as almas que tem fé, sou aquele que possui o direito de ir e vir do Inferno quando bem entender. Aquele que traz a Luz, Lúcifer! Ao seu dispor, belo moço...

-E o que quer comigo? Que fazes aqui?

-Não venha com formalidade bíblica para cima de mim, rapaz. Deixe para os anjinhos e almas condenadas. Pois bem, você fez um pacto conosco e eu estou aqui fazendo a minha parte. Vou te guiar pelo Inferno, e torcer para você entregar sua alma logo. Tenho um crente para atiçar daqui a pouco...

-Quem são essas pessoas que sofrem tanto?

-Pois veja, garoto. Esses gritos ressoam do outro lado desse rio. Consegue ver o rio de águas negras e turbulentas? É o rio Aqueronte.


Olhei para baixo da colina aonde me encontrava, e vi duas filas negras se movendo para um barco enorme, mais parecendo um navio. O rio escuro parecia turbulento, mas o barco não se mexia. Lúcifer prosseguiu.

-As duas filas são filas de almas que acabaram de ser enviadas ao Inferno, e ainda serão mandadas para seus respectivos círculos. Antigamente haviam nove círculos, mas a humanidade gosta de se sujar cada vez mais... Então criamos mais alguns.

-E o que acontece nesses círculos?

-Você faz perguntas demais, e isso está me irritando, garoto... Os círculos do Inferno são locais divididos por pecados, aonde as almas são enviadas para sofrerem o Contrapasso. Algo como “olho-por-olho, dente-por-dente”. Lá eles vão sofrer eternamente pelo que fizeram em vida. A propósito, desça lá. Caronte deve estar embarcando as almas agora. Você não vai querer perder seu barco, vai? Pegue a adaga na árvore.


Dizendo isso, ele sumiu em uma fumaça gelada, fétida e negra. Atrás dele, uma árvore estava perfurada por uma adaga prateada, toda talhada em runas as quase eu não entendia. A árvore possuía dois galhos que envolviam a adaga, como uma pessoa tentando remover uma faca do peito. Além disso, um buraco no caule parecia uma boca, num grito de horror.

Arrepiado pela árvore estranha, removi o quanto antes a adaga do tronco, com um certo trabalho, usando as duas mãos e um pé. Segurei a adaga, e percebi que não era um punhal comum. Esse não era só feito para furar, mas também sua lâmina de corte era a mais afiada que já vi.

Segurei o pingente de ferro do meu colar, e sorri. Me senti confortado, protegido... confiante. De alguma forma o pingente fazia eu me sentir com coragem e forças para seguir em frente. E foi exatamente o que fiz...

Segui descendo uma trilha tortuosa em meio a rochas enormes. Nenhum animal existia nesse lugar, nem mesmo insetos e plantas. Era desolado, horrível. Com certeza não era o mundo material mais. Após alguns minutos, notei na proa do barco gigantesco uma figura fantasmagórica.

Coberto por um manto negro com capuz, maltratado pelo tempo, estava um velho pálido, branco e de pêlos antigos. Ele gritava:

-Almas ruins, vim buscar-vos para o castigo eterno! Abandonai toda a esperança de ver o céu outra vez, pois vou levar-vos às trevas eternas, ao fogo e ao gelo!


Lúcifer estava atrás de mim, olhando minha cara de espanto, com satisfação.

-É Caronte, o barqueiro do Inferno. Pegamos emprestado da mitologia grega... Os monstros no Inferno não são diabos ou almas perdidas, mas sim as imagens de apetites pevertidos, e vivem nos círculos de sua natureza. Ele transporta as almas para o inferno, através de uma moeda de ouro que eles têm dentro de si. Agora, quando fizemos o pacto, não dissemos que estaria incluso transporte, nem vale-alimentação! Boa sorte, alma. Queime no Inferno!


Dizendo isso, Lúcifer sumiu. Minha vontade era enfiar aquela adaga na cabeça dele, mas duvido que conseguiria... como eu iria atravessar o rio? Era por demais turbulento para eu tentar nadar! Eu ia ter que barganhar com Caronte...

Passei a seguir na direção do barqueiro, que estava de costas para mim, dando remadas numa alma que hesitava a entrar no barco. Ele parou, virando-se para mim tão de repente que me assustei e caí de costas no chão. Ele gritou irritado:

-E tu, alma vivente, te afasta desse meio pois aqui só vem morto! Tu deves seguir para outro porto, onde um barco de ouro te dará transporte!


Gelei com a voz ríspida e seca de Caronte. Ainda assim, me ergui e confrontei o velho:

-Aí que te enganas, barqueiro. Não vou para o Purgatório, meu Purgatório é aqui! Vivo como viveu Dante Alighieri há séculos atrás! Agora deixe-me passar, pois não estou aqui por qualquer motivo!

-Alma ignorante, Dante esteve aqui sob mandato de Deus! E você veio aqui porque quis! Agora, que infernos um vivente veio fazer no aqui antes do tempo? Isso não é lugar para excursão, e não vejo ouro em ti! Mesmo assim...
Os olhos vermelhos do barqueiro se abaixaram até meu peito. Eu segurei forte o pingente.

-Nunca, isso nunca! – Gritei em lágrimas. – Tudo menos isso!

-É isso que quero! Algo que tenha valor, algo que tenha importância!! E o que é esse pequeno pingente que tanto te importas, que acabaste trazendo consigo para o Inferno?


Segui para ele com raiva no olhar e adaga em mãos. O velho gargalhou.

-Achas que podes me ferir com isso? Afasta-te, sabendo que não podem te machucar se não machucares ninguém por aqui. Em caso contrário...

-Não vou tentar te ferir, velho. – Interrompi


Ele me olhou intrigado enquanto eu seguia até um mastro, tendo certeza do que faria. Até os condenados na fila me olhavam ansiosos. Coloquei a mão esquerda no mastro, com os cinco dedos bem abertos. Ergui os olhos lentamente, temoroso. Meus olhos encontraram os dele, que esperava ansiosamente por minha ação. Parecia que nunca nada intrigante havia acontecido por lá. Prossegui, sem acreditar no que eu ia fazer para não entregar esse sagrado pingente.

-Sabe, Caronte... vou falar com você sem nenhuma formalidade. Deve saber que os romanos escolheram um dedo para representar o amor.


Caronte sorriu. Sua boca ia quase de orelha a orelha, exibindo aqueles dentes tão horríveis que pareciam de madeira. Gelei. Aquele velho sádico e cobiçador realmente gostou da minha idéia! Prossegui com a voz trêmula:

-... O dedo anelar possui uma veia ligada ao coração. Ou seria uma artéria? Bem, não importa. O amor me levou para o Inferno, então... para me desvincular do amor e cumprir minha missão...


Todos olhavam aflitos. Peguei a adaga e posicionei na primeira junta do meu dedo anelar esquerdo. Respirei fundo e terminei a frase.

-...te ofereço o dedo que simboliza o amor eterno.


Então, cortei meu dedo fora com duas passadas da adaga. A adaga cortava fundo e diretamente, como um bisturi. A dor era imensa, o sangue jorrava de meu dedo, enquanto as almas condenadas começaram a rir descontroladamente. Caronte também ria de meu sacrifício, parecia que o próprio rio Aqueronte, os gemidos no ar, e até mesmo o sol vermelho riam de mim. Não uma risada ridicularizadora, mas sim uma risada do mais profundo tesão sádico.

Eu me ergui, chorando com a dor da perda do dedo, o desespero, o medo. Ergui minha mão , segurando o dedo decepado na primeira dobra do dedo. Minha mão esquerda tinha um pequeno cotoco, quase metade do dedo, aonde eu havia removido ele. Caronte pegou o dedo, tocando minha mão com aqueles dedos longos, secos e gélidos. Com um sorriso, engoliu o dedo inteiro. Foi grotesco, nojento, horrível. Virei o rosto de nojo ao ver uma parte de meu corpo ser profanada assim. Lúcifer me encarava. O sorriso irônico dele não estava mais lá, mas sim uma cara emburrada. Ele soltou o vocabulário:

-Olha só o que você fez! Um segundo que eu me vou e olha para isso!!! O barco está atrasado, essa multidão... Até Jesus está perdendo a paciência com essa demora, garoto. Era para você apodrecer aqui, sabia? E agora... vira uma sessão de automultilação? De masoquismo exagerado? Certo, se você quer tanto assim ir para o Inferno, entre no barco, porque a passagem você conquistou. Agora comece as suas preces... pois será difícil daqui para frente.


Sumindo denovo naquela fumaça negra, ele se foi. Ao virar, subi a rampa dos condenado e achei uma cadeira vermelha esperando por mim. Me sentei e notei que a hemorragia havia misteriosamente parado. Era um milagre?
Não importava mais. Coloquei as mãos em minha cabeça, apertando os olhos, enquanto Caronte repetia satisfeito:

“Almas ruins, vim buscar-vos para o castigo eterno! Abandonai toda a esperança de ver o céu outra vez, pois vou levar-vos às trevas eternas, ao fogo e ao gelo!”

Logo, a rampa subiu e o barqueiro começou a remar. Eu entrava oficialmente no Inferno.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

A Canção do Imortal

Vi uma explosão
Vi trevas se partirem
Vi a criação
Vi os vivos caírem


Vi a água, vi a vida
Vi o começo do mundo
Acompanhei tudo, querida
Vi o sofrimento profundo


Vi o homem se organizando
Vi anjos se corrompendo
Vi as guerras começando
Vi o inferno ardendo


Vi o Messias crucificado
Vi o mar partido ao meio
Vi o rico exaltado
E o pobre em devaneio


Vi a praga e a peste
A fome e a dor
Sombras no coração agreste
E o fim do amor


Vi inocentes queimados
Em nome do verdadeiro Deus
Vi ciganos torturados
Por supostos pecados seus


Vi a estupros no matagal
Vi incesto, vi pecado
Vi o dilúvio universal
Vi o mal mais dedicado


Vi o homem sucumbir
Vi a sociedade desabar
Vi a honestidade sumir
Vi a morte se aproximar


Vi nações ferozes
Que atacaram derrotados
Lançando bombas atrozes
Matando um país de condenados


Vi guerra sem motivos
Pobres entregues à sorte
Vi chegar entre os vivos
A infame semente da morte


Vi guerreiros honrados
de uma raça oportunista
Sucumbirem aos pecados
De uma sociedade finalista


Vi o bens intangíveis
Vendidos á quem se retira
Vi cenas inesquecíveis
De desigualdade e mentira


Vi Cruzadas acontecerem
Vi Sangue oferecido
Ví demônios aparecerem
Vi o católico corrompido


Vi rituais profanos
Que entregaram o homem
Que como tudo é passageiro
Chegam, lutam e somem


Vi o homem sucumbir
Com suas nações profanas
Vi o mundo sumir
Nas garras insaciáveis humanas


Ó, Deus, tenha piedade
Peço do fundo do coração
Pois essa humanidade
Não mais merece perdão


Peço piedade para mim, Senhor
Pois depois de tudo que vi
Vi a beleza do mundo depor
E desse mundo sujo sumi

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