domingo, 5 de junho de 2011

Dois ou um

Dois caminhos, dois destinos, dois pólos, dois tempos...
Dois, dois, dois, dois...
Duas metades, dois olhos. Simetria, pares.
Dois ovários, dois lábios.
2, 2, 2, 2
Dois lados, duas centenas de pesares.
Dois sentimentos contrários.
Dois planos, dois adversários.
Duas mãos, duas paredes.
Duas camadas protegendo os órgãos.
Dois pés, dois ouvidos...

O mundo é feito a dois, mas para ser feliz, o ser humano só pode estar em um.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Cinco estilhaços

Em cinco pedaços me perco
Estilhaços de um coração
Minha vida centralizando o cerco
E quem sabe se regenerarão?

Vazio me preenche, lágrimas umedecem a terra
Meu corpo e minha mente se perdem quando a esperança encerra
Meu calor se esvaece, meu motivo em névoa desfaz
Minha alma envelhece, em meu peito ecoa o “jamais”.

No mar bravio da perdição o arrependimento me ancora
Na solidão de meu quarto vejo monocromática aurora
Você nunca teve uma poesia porque nunca me fez sofrer
Era eu cego em felicidade, e agora nada posso fazer.

Ao sentir frio teu corpo não mais me aquece. Ao cair não mais sou erguido.
Ao sentir solidão, tua boca me esquece. Ao tentar lutar, sou destruído.
Ao pensar em felicidade, sou golpeado. Em meio a tantos outros sumo...
Sem força nenhuma, deito calado. Sozinho, apenas vagando sem rumo.

Desculpas não removem cicatrizes, corações feridos são gelados
Pelos meus erros sinto-me meretriz, os caminhos estão interditados.
Com todo o fogo em mim restante, explodo na suprema ofensiva
Pois você é a coisa mais importante que já tive nessa vida.

Vivi um ano por um motivo, e planto minha última semente
Talvez os cinco pedaços não se juntem novamente
Não sei se sobreviverei até tê-la novamente para mim.
Então, caso eu falhe, deixo cá registrado o fim.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Névoa

Ela que cobre a todos nós
Que nos traz frio e pesadelos
Opaca nosso sentimento atroz
Leva nossos sentimentos e zelos.

Sobreviver ao abraço gélido
À carícia maliciosa e tênue
Rastejar ofegante e tímido
Os desejos que Deus não atende.

Oh, e ela é onipresente
Nos protege de dor e ardência
Nos impede de sentir amor
Ganhamos a luz e a carência

Ela que de nós tira a vida
Que envolve em lentidão homicida
A alegria de tê-la vivida
O sopro e a cor à nós concedida

E então nasce a inveja
Das crianças que riem e sentem
Da inocência que contra nós peleja
O motivo pelo que nossos sentidos mentem

Ela nos mostra as ilusões
E que o mundo é feito de cera
E o sofrimento toma proporções
Quando as lágrimas amargas não mais caem

Sofrimento mudo
Silêncio doloroso
O mais cinza escudo
Mártir vagaroso

Você sabe como é quando ninguém lhe dá a mão?
Você sabe quando é quando ninguém te afaga?
Você sabe como é indiferença se você chora ou não?
Você sabe como é quando a Névoa te apaga?

Ela se aproxima de almas solitárias
Que nunca encontrariam o caminho da vida
Oferece as linhas contrárias
Em troca da lembrança que pode ser sentida

Os sentimentos se vão, mas as lágrimas permanecem
E uma hora você não sabe mais por quê chora
Talvez esteja bem à nossa frente, mas a Névoa não nos deixa ver
E assim como os sentimentos, as lágrimas desaparecem
O porquê de viver some Névoa afora
E você fica preso nela. É assim que deve ser.

Às vezes o vento sopra e traz lembranças de fora
O preço da verdade é muito grande
O passado e o futuro não fazem diferença agora
A veracidade do coração é inconstante

Senti a lembrança de um toque
Ele ainda queima gentilmente
Lembre-se do que a Névoa quer que se troque!
Ele não faz mais diferença, sinceramente.

Mas quando a vida cai em desesperança
O homem é levado ao desespero
E quando a Névoa avança
Qualquer preço é rasteiro

Se cem vespas picam alguém
É muito fácil esquecer há quantos metros se está do chão.
Quando se sofre, só se quer parar a dor
Não importa o preço a se pagar então...

Se os sentimentos causam-nos dor
Então por quê não entregá-los à Névoa?
Tirando todos não há como repor
Mesmo que lembranças venham na révoa

É um pacto inteligente
Dar emoções por razão
A realidade não mente
Se perder toda a emoção

Mas o tempo passa e se percebe
Que a sádica não leva tudo
O sentimento que o corpo perece
Cravado em seu corpo imundo

Você está sozinho, consegue perceber?
Você consegue enxergar através do cinza?
Você quer chorar? Consegue se encolher?
Percebe seu erro agora que não pode morrer?

Não mais sentirá calor alheio
Aqueles quem prezou nunca mais te tocarão.

Oh, que isso tudo fosse devaneio!
Aqueles a quem amou são os que te queimarão!

Solidão, solidão
Por todos que te perderam
Perdido na solidão
Do modo que prometeram

Preze a presa, a presa tem pressa. Preze a pressa, a pressa da presa. A presa faz preces, preze as preces da presa! Faça preces pela presa, pois ela não escapará.
Preze a prisão aonde a presa faz preces, onde a pressa pela morte toma seu coração.
Preze a presa, faça preces pela presa! Preze a presa na escuridão

Solidão, solidão
Do modo que prometeram
Morto na solidão
Do modo que esqueceram

Erros sem retorno
Escolhas decisivas
Vejo seu contorno
Suas linhas sempre ativas

Ó, Névoa, tenha piedade
Pois a dor nos leva a escolhas precipitadas
Ó Névoa, vê que tenho saudade?
Saudade da vida que me foi retirada!

Ouço passos no escuro, sinto muito meu amor...

Talvez seja muito tarde.
Tarde demais para mim...
Escape e viva
Viva alegria sem fim...

Ela que leva tudo
Ela que suga a alma
Ela que toma o mundo
Com eterna calma

O fim agora chega, e a escravidão começa
Negue seus valores, negue sua promessa.
Negue sua honra, negue seu valor
Negue sua vida, negue seu amor.
Negue a existência, negue esse mundo
Negue sua família, negue lá do fundo
Negue seu romance, negue sua rotina
Negue seu olhar, aceite a Neblina
Negue seus desejos, negue aspirações
Negue sua pátria, não siga direções.

Nada pode ser feito além de negar
Além de obedecer, além de caminhar
O fim chegou, e a Névoa vai ganhar

É tarde demais, tarde demais para mim
Embarco agora no tormento sem fim.

quinta-feira, 31 de março de 2011

Dilema Doloroso

[EM PROCESSO DE EDIÇÃO, BREVE VERSÃO MELHORADA]

As chamas subiam violentamente do térreo, e ele encosta-se à parede do corredor quando o chão parece estar entrando em colapso. Engano seu, ainda bem. As chamas estavam se alastrando muito rápido; a casa de madeira havia formado uma equação malévola com o vento forte que vinha do leste. A casa logo mais não seria nada além de uma pilha negra em meio à grama naquela noite.

CRASH!

Ele se vira, parte do telhado do quarto de Helena havia cedido, tampando a passagem. Ela gritava apavorada lá dentro: os gritos de uma criança de quatro anos encurralada num quarto em chamas.

-CALMA, BEBÊ! FIQUE DEITADA ONDE ESTÁ! TENTE NÃO RESPIRAR A FUMAÇA! – Ele grita com sua voz rouca, e sua garganta arde. A fumaça estava fazendo com ele o que ele não queria para a filha.

"Merda, agora as duas estão encurraladas! Fui lerdo demais...” Ele pensa. Assim que sua esposa foi encurralada pelo telhado que cedeu em seu quarto, Harold correu para tentar tirar Helena do quarto o mais rápido possível. Ele não conseguiu...

-Harold! Harold, me ajude por favor!!! Está muito quente aqui, eu mal... COF! COF! EU MAL CONSIGO RESPIRAR, HAROLD! SOCORRO!

Harold para um instante, tentando secar as lágrimas e se concentrar. E agora? (PAPAI, PAPAI!!! SOCORRO, PAPAI! MEUS OLHOS ESTÃO ARDENDO) Não havia tempo para tirar os escombros dos dois quartos e salvar ambas, em menos de dois minutos a casa cederia... e agora? (HARRY, HARRY, POR FAVOR! O FOGO ESTÁ PERTO E AAARGH! SOCORRO, ESTÁ ARDENDO!)

-Não, não... Deus, por favor, não! – Harold começa a raciocinar rápido. Por que isso agora? A fumaça negra provoca um acesso de tosse nele, e ele ouve a televisão explodindo na sala. Um carro grande chega lá fora. Bombeiros?

Ele estoura a janela, e um vento forte entra, alastrando as chamas que subiam pela escada para o lado posto. Ele em desespero tenta quebrar a janela, quebrando os cacos de vidro com as mãos nuas, e estica o braço para fora.

-Socorro, socorro!!! Minha família está presa, por favor, rápido!

-Senhoras e senhores, ele está acenando! Vamos torcer para o Corpo de Bombeiros do Maine chegue rápido...

...o que? A televisão já havia chegado e a polícia não? Mas como assim? – O chão quase cede novamente, o grito das duas se intensifica. – A escolha foi feita.

-Ginger! – Ele corre até os escombros atrás dos quais sua esposa estava próxima. – Ginger, me perdoe... eu não queria que acabasse assim... (PAPAI, PAPAI, ONDE VOCÊ ESTÁ, PAPAI? SOCORRO!!!)

– As lágrimas rolavam cheias de fuligem pelo rosto, seus olhos começando a arder tanto que ele mal podia os manter abertos. – Que Deus recolha sua alma, querida...

-Harry... por quê? – Ela chorava compulsivamente do outro lado. – POR QUÊ, HARRY?

-Eu te amo, Ginger... – Ele diz entre lágrimas torrenciais, e os escombros flamejantes estouram numa crepitação insana.

-NÃO, HAROLD! POR FAVOR, EU SOU NOVA, PODEMOS TER OUTRA FILHA! (PAPAI, TÁ MUITO PERTO, ME TIRA DAQUI, POR FAVOR!) – A voz dela ela louca e desesperada, e parecia exercer influência psicológica tão bem quanto a coloração vermelha que o ambiente (outrora coberto por papel de parede rosa) tinha. Ele tosse, os pulmões secos quase se rasgando ao comprimir.

-Eu não acredito que falou isso! Ela é nosso bebê! – Ele contorce a cara em raiva e mágoa. Ele amava Ginger, mas Helena tinha mais tempo de vida, mais futuro. Ele preferiria morrer à sacrificar sua filha! Ele corre na direção do quarto dela.

-Harold? HARROLD, SOCORRO, O FOGO ESTÁ PERTO? HARROLD VOLTE AQUI! – Ela estava tendo espasmos de desespero – Harry, amor.. por favor... volte! VOLTE, SEU FILHO DE UMA PUTA CRETINO! VOLTE AQUI AGORA!!! VOCÊ VAI QUEIMAR NO INFERNO! VOCÊ VAI QUEIMAR NO QUINTO DOS INFERNOS, AAAAAAARGH! ( o fogo havia começado a incendiar sua camisola, a carne na lateral da coxa se abrira em uma bolha grande instantaneamente) VOCÊ VAI PRO COLO DO DIABO, SEU MALDITO! VOCÊ AAAAAARGH, AAAAAAAAAAAAAAAAAAAARGH! DESGRAÇADO, AAAAAAAAAAAARGH!!!

O som de sua esposa agonizando nas chamas faz Harry quase desmaiar, ele cai sobre os joelhos e o chão racha! Ele rola para frente bem a tempo de evitar cair no andar de baixo... sobre as chamas e os cacos da tela da televisão Panasonic 32” que jaziam caídos, muitos dos quais apontados para cima, como oferecendo uma recepção calorosa... ele vomita, e quase escorrega sobre o vômito ao levantar-se.

Haviam pedaços de madeira maciça em chamas e alguns blocos de tijolo junto com duas ou mais vigas de ferro bloqueando a porta. Quanto tempo ele (AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAARGH!) teria? Droga... eu a amo tanto... Seu corpo estava mole de desespero.

-Ficar assim não vai salvar ela. (PAPAI! TÁ ARDENDO!)

-EU ESTOU AQUI FILHA! PAPAI ESTÁ AQUI! – Ele começa a empurrar com as mãos nuas as madeiras, e sua pele começa a inchar em bolhas. Em seguida, começa a abrir, expondo a carne. Ele gritava de dor e de horror mental, enquanto sua carne se comprimia dentro das chamas. Ele consegue afastar a madeira e passa por entre as vigas de ferro. Corre até Helena, que gritava de medo, com um vergão –uma queimadura – no braço esquerdo.

-Cadê a mamãe, papai? Ela está bem? Eu ouvi ela gritando!!!

-Ela está bem, filha... – ele suspira. Com reflexos invejáveis, ele salta para o lado com a filha no colo. O teto desmorona sobre a caminha dela, levando chão e parte da parede para o andar a baixo.

-PUTA QUE PARIU!

-Papai, palavra feia!!!

Ele se acalma enquanto passa por entre os ferros com ela no colo. Ele queima as costas e se contorce. Suas mãos não se mexiam mais, como se uma luva de ferro as esticasse e prendesse. Ele começa a descer as escadas e percebe que elas estão quebradas!

Salta com a filha no colo, se assustando com o grito dela mais do que com a parte do corrimão que cede e cai ao lado deles. Ele cai e ela escapa de suas mãos, rolando ao chão. Uma caneta Bic derretida pelas chamas gruda no pescoço dela.

Ele corre e retira o mais rápido que pode a caneta, deixando parte do pescoço dela em carne viva. (Se não corrermos daqui, ela ficará INTEIRA em carne viva.) Ele vê a porta de saída à menos de quinze metros de distância, e parte para correr. Grita: Um caco de vidro lhe atravessara o pé.

Helena tossia muito com a fumaça, e ele a abaixa para que tente respirar um pouco enquanto dá a volta nos vidros tentando ignorar a dor. Parte correndo e...

CRASH!

O telhado e a parede cedem aonde estava a porta! Por pouco eles não escapam... e por pouco não são esmagados! Ele vira para trás: Sua última esperança era a (COF! COF!) porta dos fundos...
Ele parte, a adrenalina fluindo em seu corpo. O calor latejava seus olhos e Helena havia desmaiado com a falta de ar. Quase lá, quase lá! Ele chega à cozinha, e avista a porta dos fundos. Parte correndo e

BOOM!

O botijão de gás explode, o lançando através da mesa de madeira. Uma lasca comprida enorme atravessa suas costas, por pouco não empalando a cabeça de Helena. Se ela estivesse acordada...
Suas pernas não se mexem mais. Talvez tenha sido a madeira, rasgando algum nervo importante... ou talvez a fadiga tenha o atingido. Tão perto, se Helena estivesse acordada...

-Querida... bebê, acorda... a porta está lá... – Ele chorava compulsivamente. – Corre... corre e vive pelo papai, acorda, filha... – O teto desmorona diante da porta.

Ele encosta a nuca na parede. Eles mereciam isso? Ao menos ela não sentiria nada, estava inconsciente... cinzas fumegantes caíam do teto sobre eles, e ele arruma o cabelo de sua filha.
Tão longe para morrer ali... (VOCÊ VAI PARA O INFERNO!) O teto rachava e ia ceder sobre ambos. Ele não conseguia mover as pernas e isso não importava mais. As lágrimas rolavam de seu rosto quando...




...um toque suave vai em sua mão. Os olhos negros de Helena se dirigiam à ele, enquanto ela estava deitada no chão sob aquela coloração vermelha. Ele começa a chorar e aperta a mão da filha.

-Oh... filha...

O teto desmorona sobre eles. Ao longe é ouvida uma sirene se aproximando...

quarta-feira, 23 de março de 2011

Quebrado em 2

Eu te amo, e Deus é sádico comigo;
Nada que eu faça mudará o fato, você jura.
Amar-te é meu eterno castigo:
Dor no peito que não mata, tortura.

Se de amor morrêssemos, ele seria inimigo
Pois de joelhos pereceríamos da alma ao osso.
Se amor matasse, não seria um castigo:
Não seria tão cruel, amargo e esperançoso.

sexta-feira, 18 de março de 2011

Fênix

 Sem piedade, sem perdão,
 Eu sobrevoo suas cabeças
 Com meu fogo profanador
 Eu destruo sua inocência.

 Chama negra, que brilha sem calor.
 Mente compulsiva, vibra como louca.
 Enxofre, que envenena sem odor...
 Sangue peçonhento pinga de minha boca.

 E por um momento eu pensei em me queimar...
 Mas se isso acontecer, eu sei que vou voltar...

 A chama corrompe a todos que toca,
 Almas são coletadas para a coleção sádica,
 E a névoa doentia emana da maldita tocha.
 A névoa de sonhos quebrados e dor estática.

 Eu me corto por prazer.
 O sangue faz cócegas enquanto escorre em diversão.
 O álcool se torna um lazer,
 Lágrimas são inexistentes: a dor caleja o coração.

 E por um momento eu pensei em me queimar,
 Mas se isso acontecer, eu sei que vou voltar!

 Preso num pesadelo eterno
 O sinal macabro do céu.
 Mau presságio do inferno
 Paga pelos crimes dos quais é réu

 Ajoelho-me e me chibato;
 O ardor causa excitação
 Nas pessoas de quem me afasto.
 Experimentem o calor das chamas que virão!

 Segui pelo caminho sem volta
 De pecados, vícios, maldade.
 Se tento me segurar, você ri e me solta
 Abro os olhos para a realidade.

 Por um momento, pensei em desistir...
 Seria muito mais fácil voltar a sorrir!
 E por um momento eu pensei em me queimar,
 Mas se isso acontecer, eu sei que vou voltar!

 Maldição...

 A luz entra fraca pela janela.
 Dias cinzas não me alimentam mais.
 Preciso de almas daquela cidadela,
 A cidadela de onde vieram meus pais

 Lá há inocência e felicidade.
 Ambos os quais cedo perdi
 Com violência e brutalidade.
 Pureza vem dos crimes que cometi!

 Os purifico com essas chamas ardentes.
 Ó, vejam meu esplendor maldito!
 Ajoelhem-se perante teu mestre,
 Pois de ti me alimento e vomito!

 Por um momento, as chamas foram claras,
 E por um momento, o mundo viu a luz.
 Por um momento, o pássaro entrou em chamas,
 Chuva de cinzas que jamais se reproduz...

 E do topo do mais alto pico
 As cinzas se unem na precipitação
 E uma mancha escura no céu anuncia:
 Levanto-me agora em destruição!

 As peles se abrindo
 Vítimas do calor intenso!
 Calor que evapora seu sangue denso!

 Por uns minutos, queimei tudo que tinha.
 E por um momento, desisti do branco e luz.
 E as chamas purificaram a bondade mesquinha
 Trazendo de volta o que não se traduz.

 E por um momento eu pensei em me queimar...
 Mas se isso acontecer, eu sei que vou voltar!

 Eu me queimei!
 A maldição da Fênix!
 Preso na realidade,
 Sem saída!
(Eles podem te ouvir!)
 Todos eles podem, eu ouço em minha cabeça!
(Queime todos, vingue-se!)

 Ó, mundo infeliz, caia sobre desgraça.
(Ajoelhem-se para o fogo eterno...)
 Eu faço chover fogo sobre os infiéis!
 E eles continuam ordenando, e eu continuo queimando!






(Olhe para baixo, onde eles vivem
Como um formigueiro de seres miseráveis.
Enfileirados, reféns sem chance de fuga
Seguindo em direção ao destino inevitável.

Presos em suas rotinas desgostosas,
Em coro cantam suas decepções morféticas.
Não merecem o volume que ocupam no mundo,
Não merecem a parcela do mundo que têm.

Eles riem de você.
Eles riem em deboche ignorante, acham que estão certos.
A ignorância deles os faz pensar que estão acima de você.
Estão presos em sonhos.

De uma vez por todas,
Mostre-os a verdade.

Todo homem é responsável pelo próprio destino.
Toda geração é responsável pela vida da próxima.
Vez após vez, eles saem do ânus do mundo.
O erro está confinado no passado.

Purifique-os com seu fogo negro,
Pois nenhum ser se mantém adormecido quando começa a ser imolado.
Só o fogo pode purificar esses que vivem já podres.
Mostre a verdade. Sem piedade, sem perdão.

Eles jamais te salvariam.
Tenha misericórdia do mundo e limpe-o de seus algozes.
Faça-os sofrer. O fogo queima mas ilumina.
Sofrendo eles entenderão a verdade e te aceitarão.

Você é o Juízo Final.)






 Eu decidi meu caminho!
(É tarde demais para dar as costas!)
 Hesitar me matará,
 Chamas negras voltam sobre o corpo da fênix!

 E num circuito de praga sobre o mundo...
(Dor)
 Doença, tristeza...
(dor)
 ... Desgraça, preguiça...
(dor, DOR!)

 A praga cai como uma chuva de agulhas,
 Fiéis e infiéis no fio da espada.
 A dança desesperada dentro das chamas,
 A guerra, a psicose, a fênix intocada.

Não haverá vida, haverá nada,
O nada presente em tudo.
Sem defesa. Sem espada, sem escudo.

O sinal do renascimento,
O fogo que nos consome.
O executor e o julgamento,
O monstro que acorda com fome.

 Oh, e são dignos de pena!
(Queime-os todos!)
 Ó, arrependam-se de seus erros!
(Desista dos olhos verdes!!!)
 Gritem, desesperem-se!
(Faça-os pagar por machucar os inocentes!)
 Deslumbrem o imortal...
 E de joelhos... DE JOELHOS!
(você é eterno.)

 Eterno?
 eterno...


 ...
queima...
essa é a maldição da fênix...
ser eterno...
...
...
...




 me liberte...

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Platonicismo

Caros leitores.
Esse conto é uma continuação direta do conto que inaugurou a Névoa, Amor. Se não leu esse conto ainda, não prossiga, e leia no link abaixo:
http://contosdanevoa.blogspot.com/2010/08/amor.html

Obrigado
Isaque Lazaro



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Oliver era o seu nome.

O rapaz de cabelos ralos e negros andava em meio à neve, enquanto se lembrava de seu amigo de infância, Arkham. Ele sorri.
Ambos acabaram tendo seus destinos traçados por sentimentos que fazem o homem frágil, e ambos teriam um desfecho infeliz. Ele sentia isso. Arkham tinha esperança, ele tinha ceticismo. Amelia... a garota de olhos azuis escuros e cabelos de cor dourada que quase lembravam ouro velho.

Ele sabia que estava sendo enganado o tempo todo. Desde que Arkham e ele conheceram Amelia e Liliana naquela noite. O tempo se passou, e ele e Amelia se tocaram. Aquela pele gélida dela o assombrava. A neve parecia mais quente do que a menina. Eles deviam ter dezesseis anos na época.

O tempo se passou, e todos eles cresceram. Ele nunca viu Amelia de manhã nas ruas, mas sempre via o pai dela. Ele andava de modo como se estivesse tentando fugir de alguém durante o tempo todo. Durante as noites ele a via próximo de sua casa, sempre sentada sozinha. Aqueles lábios dela o atraíam, e ele não entendia o porquê. Ele não se importava com o motivo, mas parecia que aquela garota solitária e calada era a pessoa por quem ele sentiria prazer em sofrer. Dois anos se passaram, e Liliana sumiu. Arkham partiu atrás dela, dizendo que saberia onde encontrá-la. Esses dois anos mudaram muitas coisas, mas Amélia não mudou.

O tempo não a abalava, e ela continuava com seus dezesseis anos. Ela parecia relutante em ser amiga de Oliver, e ele não se importava. Ele se sentia forte ao lado dela, ele se sentia alguém. Ela devia esconder algo, mas por algum motivo ele não se importava.

Chegou um dia em que o pai dela foi encontrado morto. Ela não chorou. Ele seguiu até a casa simples de madeira onde ela morava. Era numa grande clareira na boca de uma floresta, com três grandes árvores, uma delas seca. Flores de todo tipo cresciam por toda a extensão da área, e uma torre com um farol e quatro canhões se mostrava no horizonte. Ele bateu na porta.
-Amelia?

Ela abriu a porta, olhando-o de baixo para cima, com uma expressão de insegurança.
-Amelia... eu sinto muito por seu pai. – Oliver engoliu seco. – Eu sei como dói perder o pai... eu tinha treze quando aconteceu.

-Ele não era meu pai. – Amelia respondeu com sua voz sussurrante e doce. Sua cabeça baixa, sua pele gélida parecia mais alva naquela noite de outono tão fortemente iluminada pelo luar.

-Ah... eu não sabia. Mas... isso não te magoou? – Ele perguntou, já confuso em reação à situação. Ela sorriu de canto com aquele olhar vazio. Ele percebeu que ela estava sem esperanças no rosto, mas...





...Ela o beijou.
Seus lábios eram macios e frios, e tocaram se colando nos dele por um breve momento. Ele ficou parado. A pele dela trouxe um calor dentro dele. Ele pediu para entrar.

Aquela noite os consagrou juntos. Ele teve o corpo dela, e ela o dele. Ela era forte, e tímida. Sua face era melancólica, mas atraente. Seu corpo era gelado, mas aquecia ele por dentro. Em meio a tantos oxímoros, ele entregou seu coração à ela finalmente.

Mais um ano se passou, e ela continuava intacta, bela, jovem... Eles se viam toda noite e aos poucos, ele se submetia mais à ela. Não fazia muito tempo desde que ele ouviu os rumores de que Liliana havia sido trancada na torre. Arkham estaria de volta em breve... mas nesse meio tempo, algo aconteceu, e tudo foi esclarecido.

Amelia sempre foi uma pessoa muito educada. Exigia permissão para entrar em sua casa até mesmo sabendo que ele morava sozinho. Ela parecia não envelhecer nem mentalmente, nem corporalmente. Seu corpo era gélido... tudo fazia sentido.
Mais seis meses se passaram, e ele já sabia de tudo. Mas não importava mais. Ele estava satisfeito assim. Era ridículo acreditar que Amelia o amava. Mas ela alimentava o amor dela, e ele a alimentava. Era óbvio demais se Amelia o fizesse, então ele caçava para ela. Era perigoso? Sim, era. Ele podia ser morto como o “pai” dela, mas era o único jeito. Ele não mais vivia sem as carícias de Amelia.

É ridículo acreditar que um morto possa amar, mas se fosse assim, poderia um homem amar um morto? Não mais importava. O sol já se punha no horizonte, e era hora de caçar. Até que o suspeito dos assassinatos recentes apareceu. Aquele que amava uma morta.

Acreditarem que Arkham matou essas pessoas em rituais demoníacos foi uma boa cobertura para que ele caçasse sangue fresco para Amelia, mas agora, ele estava de volta, e havia entrado na torre. O suposto culpado seria morto na torre mesmo...

Era triste, Oliver sentiu um aperto no coração. Mas nada mais podia ser feito. Saciar Amelia, saciar o motivo de sua vida... isso era mais importante. Uma pequena embarcação voltava para a praia pelo horizonte, e as ondas se quebravam nas rochas. Seu destino seria um pouco melhor, ao menos... mas ele precisava partir dali com Amelia. Antes, ele pegou seu cantil, e sua faca e partiu para a caça, na direção oposta de uma multidão furiosa com tochas e forcados que partia para a torre...

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