sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Náusea

Sozinho no escuro, os olhos inutilmente fechados por medo.
Em prantos. Tenho-te ao meu lado e não te toco. E talvez não me importe.
Talvez tente não me importar. Talvez me importe tanto que não consiga demonstrar.
Talvez tenha demonstrado tanto que não deva mais fazê-lo.

O céu é alaranjado com verde.
O mundo tão podre que os pássaros carniceiros fogem de desgosto.
A sociedade corrompida, o amor denegrido.
As lágrimas são o sal que tempera o mundo.

O vento uiva com o som de mil gritos.
As pessoas marchando como porcos imundos para o abate.
Escorregando nas próprias fezes, alimentando-se do próprio vômito.
Presos em sua existência vã. Sem visão, sem existência, sem sonhos.

Sem a ideia de fraqueza não há o forte. Sem a ideia de vida não há a morte.
E seu abraço é só uma lembrança.
E sem consolo, sem esperança.
Eu abandono o mundo, abandono eu mesmo.

Eu me debato entre náufragos
Num mar de pus e sangue. Fétido e azedo.
Meu corpo se arrepia de nojo. Sinto que vou desmaiar.
Uma proa cai e me leva até a terra.

Eu vomito.
Nada em meu estômago, estou vomitando bílis.
Estou vomitando o que restou de esperança.
Em mim, em nós.

O sol se racha.
Nele se abre uma vulva. Fedida, peluda.
Dela escorre uma gosma branco-amarelada.
Podre.

Podre como todos.
Cercando-nos como vermes famintos e irracionais.
Rastejando pelo chão enlameado por eles mesmos.
Grunhindo seus prantos indistinguíveis e idênticos.

Meus olhos se contorcem em horror.
Peço que as aves carniceiras retornem e levem-nos de meu rosto,
Peço ao Deus surdo que me apague.
Pois a batalha já foi perdida e estou lutando contra o nada.

Mas ele não é surdo.
Ele está ouvindo cada grito e está gostando.
O mundo já acabou faz tempo; insistimos em nossa existência.
Procriamos como moscas numa carcaça. Esse é o inferno.

O que é pior?
Ser triste ou não sentir nada?
Sofrer ou morrer?
A beleza do sofrimento está na esperança.
A esperança está presa ao mesmo tão firme quanto às unhas em nossa carne.
E dói tanto quanto ao ser removida à força.
E faz tanta falta quanto.
E causa tanto vazio quanto.

A beleza da morte é o vazio.
Vazio puro, mórbido, gelado.
Ausente, amoral, atemporal.
Inexistente e eterno.
O motivo pelo qual vivemos é a morte.

É inevitável.
Nosso destino imutável.
Vamos todos tornar-nos corpos inertes um dia.
E nesse dia saberemos como é não sentir nada.

A esperança me corrompe.
Minhas entranhas se contorcem e engasgo em meu próprio vômito.
Em algum lugar, alguém se excita com isso.
Muito calor, preciso respirar.

O fedor de seu corpo é azedo, sua pele escorregadia.

A coceira não passa.
Estou sem unhas e minha pele arde.
E ao redor eles olham e murmuram.
E se rastejam nos próprios restos, eles criam a própria lepra.

Eu me rasgo entre vinhas de ossos.
Pessoas ainda vivas com as farpas de seus corpos para fora.
Eu esbarro nelas. Gemidos de dor e súplica.
No escuro, alguém se masturba vendo isso.

Eles não querem salvação.
No lugar do céu laranja e verde, eles veem um azul angelical.
Eles cegam a si mesmos.
Sabem que estão errados. Gostam de estar errados.

Não há o que vomitar mesmo que meu estômago cole suas paredes.

Meu corpo trêmulo e fraco não quer seguir. Então por que sigo?
A esperança me corrompeu. A felicidade me corrompeu.
Sigo em frente mesmo sabendo que no fim só há a morte.
A esperança fez o céu parecer azul...
A facada final me mostrou o mar de pus.
É sempre um ciclo. Sempre um ciclo.
Felizes, de guarda baixa, o mundo nos engana.

Talvez eu siga em frente porque já estou preso nessa situação.
O fedor do pus impuro me deixa tonto.
Deixa o sangue derramado laranja.
A bílis seca na areia... cinza.

E ainda temos coragem de acreditar no amor?
Felizes os que conseguem alguém que os aceite!
Os demais estão presos no inferno comigo!
Rastejando-se em catarro para aliviar o atrito no chão, na realidade!

Alguém se rasga com as próprias unhas.
A carne aberta para fora como uma flor desabrochando.
Derramando seiva sangrenta.
Desabrochando dores, horrores.

Risadas histéricas.
Loucura. Loucura?
Quem é o louco? Eu ou eles? Ou ela?
Quem é normal? Quem é puro?

Quem é justo o bastante para julgar os demais?
Quem é cego o bastante para não ver os demais?

Vomito. Vomito sangue e bílis.
Vomito você. Vomito nós. Vomito tudo.
Não tenho forças para tentar suicídio.
Sou fraco demais para desistir.

Talvez romântico demais.
Sigo em frente.
O mundo está doente.
Deixo tudo para trás,

Ainda sabendo que voltarei a olhar os caídos.
Isso é o inferno! Você sabe que está no inferno!
Não há um segundo de silêncio entre os gemidos dos condenados.
Eu estou gemendo junto. Eu caí.

Azia durante o macio e quente.
Caminho nessa diarreia,
Asfixiado pelo mau hálito do povo.
Caio em meus joelhos e a amargura me estupra.
O mundo está decadente...

... E não há cura.

6 comentários:

Anônimo disse...

Eca Isaque.. HAUAHAU
Se eu estivesse na situação do cara, me jogaria no primeiro barranco ou qualquer coisa assim.

Beijos

Juh

Carlos Sousa disse...

Rapaz, faz tempo que não leio algo que proporciona uma atmosfera tão pesada e vertiginosa...

Um trabalho repleto de versos de impacto, provocando variadas sensações que vão desde resignação ao desespero.

Textos assim devem ser apreciados com uma boa sensibilidade, humildade, cautela, e por que não um pouco de medo? Um trabalho tão bom quanto perigoso de se ler. Parabéns man.

O Mestre Walla disse...

Nada como um bom conto para abrir o apetite...

Mayara Vidal disse...

Isaque, você realmente merece meu respeito... Vou ficar a noite toda aqui lendo os demais.. ahauahsua #issovicia

Davi Augusto disse...

Li agora... Por causa do Face.
Cara, realmente incrivel o que você consegue escrever. Merece os parabéns. Não temos muitos escritores assim no Brasil, você realmente é um dos únicos por aqui.

Henrique Marinho disse...

Nessa madrugada, nesse momento, ler isso me consola.

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